Quando não está na estrada, Elton John trabalha como empresário, de olho nos artistas contratadas da Rocket Music, sua empresa. “É por isso que eu queria começar uma empresa de management, para dizer a esses jovens ‘eu já estive aí. Eu posso ajudar vocês porque sou quem eu sou'”, diz Elton. Um desses artistas é o Ed Sheeran, cuja carreira foi auxiliada pelo Elton a sair do chão (com a ajuda do empresário oficial do Ed, Stuart Camp, também da Rocket). Em entrevista para nossa recente matéria de capa com o Ed Sheeran, Elton fez revelações sobre seu cliente, incluindo os conselhos que já lhe deu e o porquê de Sheeran lembrá-lo de si próprio no início dos anos 70.

O que você acha dos singles recentes de Ed, ‘Shape of You’ e ‘Castle On The Hill’?
Eles são ótimos. É muito engraçado ouvi-lo cantar ‘Tiny Dancer’ [em ‘Castle on the Hill’], eu fiquei muito tocado. Ele tocou o álbum para mim em Londres e disse que lançaria dois singles. Ele é sempre muito iluminado, porque veio numa época quando nada estava acontecendo, no final do ano. Todo mundo estava ouvindo sempre as mesmas coisas. Então, ele encarou o desafio e lançou duas faixas. Minha empresa disse ‘sabe de uma coisa, fizemos uma pesquisa em todo o mundo: o streaming de Tiny Dancer aumentou 30% desde o lançamento do single’. Isso não é estranho?

Ele é basicamente o único artista solo/acústico que pode esgotar um Estádio de Wembley, por que você acha que ele consegue?
Apenas a composição, pra começar. Ele é um excelente compositor. E não apenas para si mesmo. Ele pode pode compor melodias tão facilmente. O triste sobre o Ed é que todo mundo soa como Ed Sheeran agora: Shawn Mendes, Bieber, blá, blá, blá. Eu só acho que alguém que pode criar algo como ‘Thinking Out Loud’ – algo que Van Morrison teria ficado orgulhoso em escrever, ou eu teria ficado orgulhoso em escrever – é um compositor magnífico. E você sabe que tem que se lembrar que ele tem apenas 26 anos de idade.

Mas ele faz com que eu me lembre de mim quando comecei; seu entusiasmo e seu amor. Ele sempre está fazendo algo, seja escrevendo suas próprias coisas ou escrevendo para outras pessoas. E lembro de ser assim em 1970, quando vim à América pela primeira vez. Nada era impossível. Você está trabalhando em adrenalina e no simples fato de ser um sucesso. Quero dizer, ele começou tocando em salas de estar na casa das pessoas, tocando nas ruas, fazendo tudo isso. Então, ele fez por merecer. E só o fato de ele ter colhões para ir e fazer isso na frente de 90 mil pessoas – é preciso de muita coragem. Tenho feito performances há muito tempo. Fiz shows solo no Madison Square Garden e fora também, mas nunca toquei para 90 mil pessoas. Isso exige muita confiança. E ele não tem pouca confiança.

Mas o que eu amo no Ed, é que ele está sempre pedindo conselhos. Por exemplo, quando o primeiro álbum saiu, o +, ele me ligou e disse: ‘Escute, a gravadora quer que eu faça outro álbum direto. Mas me ofereceram 88 datas na turnê da Taylor Swift. O que eu faço?’ E eu disse: ‘Não há o que pensar. Você faz a turnê da Taylor Swift porque A) não é particularmente o seu público, B) ela é sua amiga. Você começará tocando para metade do público. Mas será a experiência mais incrível para você. Te dará tudo que você precisa quando realmente estiver grande’. E ele ouviu isso, e foi a melhor coisa que ele poderia ter feito. Ele me enviou um e-mail dizendo ‘Obrigado, essa foi uma decisão realmente boa’. Então ele sempre está aberto a fazer perguntas.

Em quais outros momentos você o aconselhou?
Quando o X foi lançado, ele se sentou no escritório e tocou ‘Sing’ e eu disse: ‘Bem, essa tem que ser o primeiro single’. E ele disse: ‘Não, porque eu acho que as pessoas pensarão que é algo muito Pharrell.’ Eu disse: ‘Esqueça isso. Você teve dois singles nas paradas americanas. Um é chamado ‘The A Team’, outro é chamado ‘Lego House’. Ambas são baladas. Se você quer ir de A a B muito rapidamente, esse é o single que te possibilitará isso. E não lance ‘Don’t’. É isso que as pessoas não esperam ver você fazendo.’ Ele reclamou, mas concordou. E o single fez sucesso muito, muito rápido e foi a melhor coisa a ser lançada primeiro. Foi o menor single de todo o álbum – ‘Photograph’, ‘Don’t’ e ‘Thinking Out Loud’ [foram maiores] – mas foi o single certo no momento certo.

Eu só estou te contando essas coisas porque isso é o que eu faço para ele. Quando ‘The A Team’ começou a ser tocada nas rádios, e estava sofrendo, eu fiz um show no Clean Channel no Sul da França no Hotel Du Cap em Antibes para que eles pudessem manter a música nas rádios. E então, quando o Grammy foi anunciado naquele ano, Ken Ehrlich disse: ‘Bem, ele não é um astro grande o suficiente para estar no Grammys’ e eu disse: ‘Bem, eu discordo. Ele será um astro muito, muito, muito grande.’ E ele disse: ‘Bem, nós não podemos colocá-lo [nos palcos]’. E eu disse: ‘Bem, e se eu fizer um dueto com ele em The A Team?’ E eles aceitaram. Então, esse é o tipo de coisas que eu tenho feito nos bastidores a fim de ajudá-lo. Mas teria acontecido de qualquer forma porque ele simplesmente é uma força da natureza. É por isso que eu queria começar um agência; para dizer a esses jovens: ‘Eu estive aí. Vocês precisam fazer isso. Eu posso te ajudar porque eu sou quem eu sou”, e ele é eternamente grato. Sabe, eu o amo até a morte.

E como você o escutou pela primeira vez?
Ele nos foi apresentado por um cara chamado Jus Jack. Ele o sugeriu. Ele também estava na equipe de nossa empresa. Ele teve alguns hits grandes. Ele apresentou o nome e não tivemos que pensar para assinar com ele. Ele simplesmente tem uma história de estrelato inevitável escrita sobre ele. Ele não se parece com um [astro] e isso é o que eu amo nele. Ele não se conforma com o estrelato. Ele não se veste com elegância. Ele apenas ama seus fãs. Ele ama sua música. E o que você ver com ele, é o que você recebe. E você recebe 100% de honestidade e 100% de bondade, o que eu adoro nele. E também gosto bastante de seu lado competitivo porque quando se é um artista, você tem que ser competitivo quando está nessa fase de sua carreira.

De onde esse lado competitivo vem? Seus pais? Como são os pais dele?
Os pais dele são pessoas extremamente adoráveis. Não, eu não diria que vem dos pais dele, eu acho que vem simplesmente de seu trabalho duro e seu amor puro pelo que faz. É como eu – eu ainda amo o que faço e tenho 70 anos de idade. Eu amo até mais. Ele tem um entusiasmo que separa o homem dos garotos. Quando você tem um entusiasmo tão imenso e essa necessidade enorme de fazer sucesso, nada parece ser capaz de te impedir. Haverá um momento em sua carreira onde não será mais a mesma coisa. Aconteceu comigo e com tantos outros. Mas ele poderá ter um catálogo de canções naquele momento que o manterá interessante ao público. Ele pode fazer exatamente o que ele quer. Eu acho que você encontrará um Ed Sheeran mais profundo e mais interessante no futuro.

Aonde você quer vê-lo musicalmente?
Eu disse: ‘Ed, você não pode continuar fazendo isso para sempre. Mais cedo ou mais tarde eu quero que você tenha uma banda para te ajudar a melhorar enquanto músico, enquanto compositor, e apenas mudar o show um pouco. Quantas vezes você poderá usar o pedal de loop? Você pode fazer isso pelos próximos anos talvez, mas depois terá que pensar no quê quer fazer em seguida’. E ele tem noção disso. Ele é um grande fã do Ray Lamontagne. Ele disse: ‘Eu adoraria fazer um álbum como Trouble’. Ele possui tantas forças. Ele enorme no grime e na comunidade de hip-hop na Grã Bretanha. Ele sai com todos esses caras; ele é muito ligado e esse tipo de música. Não há nada que ele não possa fazer.

Como é quando vocês dois saem juntos socialmente?
Eu não bebo, então… É algo bom ele não ter aparecido na mesma era que eu, caso contrário, ficaríamos acordados por três semanas juntos. Ele não é um grande drogado. Ele gosta de uma bebida e, é, ele é muito divertido. Tudo que fazemos quando estamos juntos é falar sobre música: ‘O que você acha do novo single do Bruno? O que você acha do The Weeknd?’ porque eu me mantenho atualizado com todas essas coisas também. Embora tenhamos décadas nos separando em idade, temos tudo em comum.

Quando ele decidiu tirar o último ano de férias, você teve alguma conversa com ele sobre isso? Você achou que era uma boa ideia?
Sim, ele estava tão onipresente que eu disse, ‘Ed, até eu estou cansado de você. Vá embora’. E ele foi. Ele foi até o oriente com sua namorada, teve um momento excelente, engordou, comeu bastante e voltou. Uma coisa que eu disse quando ele foi, foi ‘não engorde’ porque ele tem muita facilidade para engordar, assim como eu. E ele voltou pesado, mas perdeu tudo para o álbum. Ele simplesmente foi e teve uma época excelente. E foi a coisa mais brilhante que fez, porque isso refresca a alma – não que eru já tenha feito isso. Não sou do tipo que vai até extremo Oriente, andando pelos lugares com uma mochila; não faz o meu estilo. Eu sou muito envolvido com outras coisas. Mas ele fez isso e foi a melhor coisa que poderia ter feito. Ele estava muito onipresente. A Taylor Swift fez a mesma coisa. Quero dizer, tudo que ela tem agora é o single com o Zayn Malik para a trilha sonora de 50 Tons de Cinza. Você não ouviu muito sobre ela desde 0 1989, exceto quando ela terminou com o Tom Hiddleston, foi basicamente isso.

Conte-me sobre os jantares que você tem na casa do Ed.
Ele só quer ouvir sobre o Lennon e os Beatles e pessoas do tipo. Ele cresceu com a minha música – os pais dele me amavam, eles amavam Van Morrison, então ele só quer saber sobre o que eu passei. E eu tenho muitas histórias para contar. Ele só senta com os olhos abertos e diz: ‘você fez isso?’ E eu digo: “Sim, e fiz muito mais também”. Eu disse: ‘Ed, aproveite – e você está aproveitando. Você ama cada momento disso’. Ele trabalhou incansavelmente para chegar onde chegou. Ele nunca recusou uma entrevista de rádio. Ele apareceu em hospitais para cantar a pessoas doentes, jovens à beira da morte, em seus dias de folga. Ele é esse tipo de cara e eu o amo pra caramba. Eu o amo porque ele é extremamente safado também.

Como?
Eu não posso contar isso. A Rolling Stone é uma revista para família.

Fonte | Tradução e adaptação: Fernanda – Equipe ESBR
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