Tirando cada um dos ataques do Donald Trump e seus tweets cada vez mais perturbadores, sabe o que pode ser uma leitura espetacularmente de cair o queixo? Tente a matéria sobre as conquistas impressionantes do Ed Sheeran, que saiu na mais recente edição da revista Clash.

“Ed foi o artista mais tocado no Spotify no mês de janeiro de 2017 no mundo todo”, começam as observações, que são cheias de palavras como “maior de todos os tempos”, “o primeiro”, “mais visto” e “mais compartilhado”, e números impressionantes como “200 milhões de streams combinados”, “100 milhões de visualizações” e “90 certificados platina”. É incrível quando você percebe que estas conquistas foram acumuladas em apenas seis anos, e que essa pilha crescente de recordes não mostra sinais de esgotamento.

Porque, só nessa manhã, uma nova leva de conquistas foi anunciada, no despertar do lançamento do ÷, seu terceiro disco nomeado matematicamente, após o debut do +, e o seu sucessor arrasador, x. Já tendo batido as venda da primeira semana do x, o ÷ já vendeu duas vezes mais que todo o top 200 das paradas, com nove de suas faixas ocupando um espaço no top 10 singles do UK.

Antes do ÷ ver a luz do dia, entretanto, o homem do momento tomou distância do próprio sucesso para respirar, e aproveitou a oportunidade de fazer o que qualquer um de nós faria antes de nos dedicarmos por dois anos de responsabilidade de trabalho, sem parar: ele saiu de férias. Por seis semanas.

“Eu larguei a escola aos 16 anos e comecei direto a fazer shows e depois obtive sucesso com isso, e aí trabalhei a partir daí”, Ed fala à Clash, quando nos conhecemos em North London. “Eu tenho 26 anos agora, então foram 10 anos de trabalho direto, e então, na primeira oportunidade que tive… Todos os meus amigos tiveram um ano sem fazer nada, e eu quis fazer isso.”

“E acredito que seja melhor fazer isso sem um orçamento”, ele ri. “Acho que é mais divertido.”

Tendo saído das redes sociais a fim de garantir que a pausa pudesse ser aproveitada ao máximo, Ed embarbou n’uma viagem inspiradora no Japão, depois uma viagem pela costa Oeste da Austrália, e finalizou com uma parada rápida na Nova Zelândia. É claro, você não consegue o nível de conquistas do Ed Sheeran sem uma ética de trabalho tenaz e infalível, então o tempo que ele passou distante, não foi completamente desconectado de suas responsabilidades do dia-a-dia. Por exemplo, ele já havia planejado mais de metade das faixas que entrariam no ÷; o tempo de descanso meramente o permitiria refinar essas escolhas, e sentir a direção que deveria tomar.

“Eu meio que escolhi viajar a locais onde eu sabia que tinha amigos”, ele explica, “então, toquei o álbum para pessoas que conhecia, e você pode sentir quando as pessoas gostam das coisas e quando eles não gostam das coisas – ainda que sejam educados e digam que gostaram de tudo – então, nesse tempo você realmente pode lapidar.”

Seus amigos se mostrariam visionários. A preferida deles, pontua ele, foi ‘Castle On The Hill’, que seria lançada ao lado de ‘Shape Of You’ como primeiros singles do ÷, ambas tendo ocupado o topo das paradas no mundo inteiro. Embora outras músicas tenham sido descartadas, Ed sabia exatamente como preencheria os vazios. “Eu simplesmente sabia como cada música soaria”, conta ele. “Eu sabia que queria uma música folk, eu sabia que queria um rap. Sabia que queria um hino de estádio inspirado no Springsteen, e então eu simplesmente escrevi o máximo de músicas que consegui, para chegar àquela música em particular que entraria no álbum, e depois escolhi a melhor delas. Então, há algumas ‘Castle On The Hills’ por aí que não são tão boas quanto ‘Castle On The Hill’.”

Escrita durante uma longa estada nos EUA, a música é repleta de nostalgia por uma infância passada em uma Suffolk frondosa, foi inspirada numa saudade de casa repentina (“Eu não tenho visto os campos já há tempo tempo”, ele canta. “Eu sei que cresci, mas mal posso esperar para voltar para casa”) e é outro exemplo da habilidade inerente que Sheeran possui de reconhecer minúcias da vida suburbana. Memórias de “fumar cigarros enrolados à mão” e de “ficar bêbado com os amigos” são universais, e a chave reside em confissões naturais ao seu grande público.

“Eu acho que quanto mais honesto você for, mais as pessoas se envolverão com a sua música”, garante ele. “Você definitivamente consegue dizer quando as pessoas não estão sendo honestas quando as músicas não duram. Você não ouve às músicas.”

Ser muito honesto tem seus pontos negativos, ele admite, especialmente se causa algum impacto negativo em outra pessoa. “Houve uma música no meu outro álbum que eu realmente não queria ter colocado, e coloquei e ela ofendeu alguém e, em retrospectiva, eu realmente me arrependo”, ele confessa. “Eu sabia que seria aquela decisão, mas é uma música que muitas pessoas escutam e gostam porque elas podem se relacionar com ela, se isso faz sentido.” 

Compelido pelo poder da música, Ed – já evidentemente um comunicador afável e aberto (sério, cara, um pub na próxima vez, tá?) – se torna mais animado quando recordamos as camadas de aperfeiçoamento pelas quais ele se dedicou. “Eu gosto de ser conhecido como um compositor”, ele diz enquanto come amendoim. “Eu sou um performer, mas eu quero ser lembrado como um compositor… Uma música é algo que existe para sempre.” Ele lotou seu arsenal com colaborações com a One Direction, Jessie Ware, Rudimental, Robbie Williams, Justin Bieber, Major Lazer, Jess Glynne, Ryan Tedder e Taylor Swift, dominando completamente os charts, embora sorrateiramente, enquanto desenvolvia seus talentos. “Quanto mais músicas você escreve, melhor você fica”, ele diz, “e quanto mais se trabalha com artistas diferentes, mais completo você fica e suas ferramentas ficam mais afiadas, eu acho.”

Um de seus desvios criativos mais surpreendentes, foi o EP de 2011, ‘No. 5 Collaborations Project’, no qual ele juntou forças com expoentes do grime no UK. “Essa é a minha coisa favorita que já lancei”, Ed conta sobre o lançamento de oito faixas, que traz artistas como Wiley, Devlin, JME e Ghetts, entre outros, mas não aconteceu sem suas dores de cabeça.

Lançado antes da saudação do Kanye ao grime no BRIT Awards de 2015, ou sem o sucesso do LP ‘Konnichiwa’ do Skepta no ano seguinte, a associação do Ed com o que ainda era relativamente um movimento de raiz local, foi desafiado por aqueles que falharam em reconhecer seu apelo comercial. “Lembro de tocar o EP [a um de meus amigos] e ele ficou tipo, ‘essa é a pior decisão que você já tomou. Isso basicamente irá atrasar a sua carreira por muito tempo’. Eu realmente queria fazer aquilo, e eu amei a música, mas todos ao meu redor meio que pensaram que eu estava fazendo um projeto por capricho.”

Apesar de seu amor verdadeiro e patrocínio à música grime (o que, discutivelmente, considerando seu próprio crescimento, ajudou sim no avanço do gênero), uma tempestade cairia em 2014, quando a rádio da BBC 1Xtra o colocou no primeiro lugar de sua lista, taxando-o como o artista mais importante do UK. Imediatamente, houve críticas em torno da caiação feita pela rádio que se dedica à música negra. Ed enfrentou uma hostilidade em particular, quando até o Newsnight levantou a questão ‘como o branco classe média Ed Sheeran, foi nomeado o artista mais importante da música negra e urbana?’.

“Isso me deixou puto, cara,” suspira ele, recordando o acontecimento, “porque eu não tive porra de voz nenhuma nisso, de qualquer forma. Eu só acordei um dia e isso estava online, e então, recebi uma porrada de crítica negativa por algo que sequer tentei fazer parte. Só estava online. Foi algo muito, muito estranho.”

Uma desapontante consequência de um empenho legitimamente envolvente cuja merecida aclamação acabou por desafiar os instintos artísticos de Ed, que já o tinham o impulsionado para baixo das avenidas musicais e, na esteira de sua descoberta comercial, distante de suas brincadeiras encardidas. “Estou consciente que agora é ficar maior ou dar um passo para trás,” ele confirma “porque eu gosto de escutar isso para caralho, mas acho que me afastar agora em que as coisas estão enormes seria estranho.”

Seis anos pela estrada, você pensaria que por agora Ed Sheeran seria isento da repetição de tais instruções indesejadas, mas quando sua nova música “Galway Girl”, que tem a contribuição do grupo irlandês de folk Beoga, eles o imploraram para que ele reconsiderasse a inclusão da faixa no ‘÷’. “Essa é a coisa mais estranha para mim.” ele ridiculariza, “porque ‘+’ vendeu 1o milhões, ‘x’ vendeu 14 milhões, e os dois fiz com o mesmo processo, achei fascinante que não cheguei a um ponto em que as pessoas não questionam. Quer dizer, acho que é bom ser questionado, porque isso quer dizer que você fez um bom álbum, mas falar tipo ‘quero fazer uma música folk’ e as pessoas responderem ‘Bem, não é realmente legal,’ eu realmente não entendo porque eu não poderia fazer isso.”

“Quero dizer, funcionou,” ele dá de ombros. “A música é boa.”

Mais que apenas uma afetiva celebração de suas rotas irlandesas ou a dívida de influência devida a Van Morrison, Ed incursa no folk uma extensão na grande herança do trovadorismo que algumas músicas mantém e suas meldias instantaneamente identificáveis. “Estava tentando explicar [à minha gravadora sobre] aquela musica do Avicii, ‘Wake Me Up’. Quero dizer, ela é essencialmente, se vocÇe tirar a melodia, uma música folk, e ela foi grande para porra. Estava tentando dizer ‘Olha, eu sei que é uma música EDM, mas se fizer uma música folk, é tão boa e tão grande quanto.’ E sim, estou certo,” ele afirma, seriamente consciente de seu mercado, “e meu ponto será provado daqui a uma semana e meia, quando esta música sair.”

Uma semana e meia depois, e ‘Galway Girl’ atingiu a primeira colocação na Irlanda, ficou no top 10 nos trends do Reino Unido e virou o hino não-oficial do dia de São Patrício deste ano. Na sua cara, hater do folk.

Sua implacável obstinação só pode ser admirada. Ele se auto-estimulou durante árduos que passou dormindo em sofás em um circuito de infindáveis shows e manteve seu coração perseguindo todas as oportunidades fortuitas que se apresentaram. Ele é consciente sobre seus números de vendas e de seus contemporâneos, e propositadamente conduz-se a superar todos eles, resolutamente aderindo ao plano de carreira que já está mapeado, e jogando o jogo a cada passo no caminho para garantir que ele não é descarrilhado.

Ele prontamente descarta o lançamento de álbum surpresa, a favor de métodos tradicionais que envolvem muitas exaustantes divulgações em todos os níveis. “Todos os grandes artistas que conheço ainda fazem isso. Taylor, sempre que lança um álbum, todas as estações de rádio na América ganha, uma placa autografada dedicada a elas, ou algo assim, e ela faz meet & greets com eles e lembra todos os seus nomes. Ela faz isso, mas alguns artistas não fazem de jeito nenhum – e continua funcionando para eles, mas eventualmente, quando o dia chegar e isso não funcionar, as rádios irão simplesmente parar de tocá-los porque não há lealdade e amor.”

Manter este compromisso intensivo com os detalhes mais finos de sua carreira obviamente valeu a pena, mas enquanto as áreas mais produtivas de seu mundo se beneficiaram do tempo e do enxerto concedidos, ele admite que outros sofreram como resultado – a saber, sua vida pessoal. Tendo previamente colocado namoradas como apenas outro compromisso em sua agenda cheia, ele admite que apenas no curso de seu relacionamento com sua namorada Cherry Seaborn ele aprendeu a apreciar que você não tem de se comprometer para achar a real satisfação.

“Eu sempre pensei que para ter uma carreira realmente boa, você tem de ser incrivelmente infeliz, e sempre pensei que para ser realmente feliz, tinha de ter uma carreira ruim, porque eu não via a balança entre os dois,” ele diz “e eu percebi que isso é obviamente uma merda que você diz para si mesmo para justificar.”

“Vivo com Cherry agora,” ele diz, com orgulho. “Temos gatos, pedimos comida e assistimos filmes, amigos vão lá para jantar conosco. Eu nunca tive isso.”

Enfrentar a mudança e ajustar em conformidade irá estabelecer Ed em um bom lugar para o que pode vir à frente. Três álbuns em seu plano previsto de cinco (o primeiro, ele promete, de muitos), suas vistas são ajustadas em algo um pouco mais imprevisível para seu próximo passo. Citando como precedente a decisão de Bruce Springsteen de liberar a desolação despojada de ‘Nebraska’ como o seguimento do bem recebido ‘The River’ em 1982,  à frente do poder infalível de ‘Born In The USA’, Ed tem em mente um comparativamente sucessor mais calmo de ‘÷’ que ele insiste em dividir a opinião sobre.

“Eu sei que as pessoas irão gostar, mas não acho que venderá tanto quanto os últimos três, e essa é a intenção,” ele diz, explicando-o como uma oportunidade para conter sua ascensão com um retiro considerado que, em seguida, irá autorizar um retorno impactante.

Ed Sheeran está em completo controle. Ele tem resistido ao grind para dominar seu próprio destino e se tornar um modelo para uma nova geração de artistas empreendedores que procuram aprender com seus métodos atenciosos (e a velha geração, também: “Van Morrison queria saber sobre Spotify. Ele estava fascinado por aquilo. Eu não sei muito sobre o Spotify, porém,” Ed ri). As horas que ele investiu o catapultaram para o estrelato internacional, e sua resolução infalível provavelmente irá mantê-lo lá.

“Não acho que minha carreira vá para o buraco,” ele diz, “mas acho que em certo ponto vou dar um passo para trás, e no momento que me afastar, só vou escrever músicas e fazer um show de vez em quando,” ele diz “Vi uma coisa que Noel Gallagher disse: ‘Se tudo der errado, eu sei que em qualquer lugar do mundo eu posso me levantar e tocar para umas 500 pessoas pelo resto da minha vida, qualquer lugar.’ Talvez eu não vá tocar no Wembley [Stadium] pelo resto da minha vida, e ralvez não vá ter músicas nos tops dos charts pelo resto da minha vida, mas sempre vou poder fazer essas duas coisas e viver disso.”

“Não estou preocupado sobre isto,” ele adiciona, exalando um ar de certeza que é tão firme quanto seu status de superstar e tão realista quanto sua preferência por tênis de corrida confortáveis ao invés de alternativas mais caras. “Acho que se tudo terminasse amanhã, eu tive uma experiência boa para caralho.”

Tradução e Adaptação: Fernanda e Annie, equipe ESBR

Fonte: Clash Magazine