“Antes do show do Ed como headliner do Glastonbury, eu pensava em como deveria ser estar no Pyramid Stage [principal do festival], com milhares de pessoas olhando para você. E apenas você. Bem, esta noite tive um pouco dessa visão. Eu tive sorte suficiente de poder fotografar o Ed – sua apreensão ao caminhar, o show triunfante direto do palco… e em um momento do qual me lembrarei por muito tempo, quando pude correr para trás dele a fim de fotografá-lo enquanto tirava uma foto de seus fãs. Como ele é capaz de manter tantas pessoas na palma de sua mãe é insano. Nos abraçamos depois e eu o deixei com várias pessoas importantes que adorariam poder preencher os espaços vazios que o rodeiam no palco.” Alex Lake, fotógrafo chefe da Q.

Ele é o maior astro do pop do mundo, que não se chama Adele, e ainda assim, ele também é o que mais divide opiniões. Dorian Lyskey encontra Ed Sheeran durante a turnê, e depois nos bastidores de seu show triunfante no Glastonbury para desvendar o segredo de seu sucesso, e conversar sobre remédios prescritos, política, “derrotar os críticos” e como ele tem um cheiro tão melhor do que aparenta.

Se há uma música que resume o lugar de Ed Sheeran na cultura popular em 2017, é Galway Girl. Essa música está longe de ser sua melhor. Na realidade, quando ele a gravou no verão passado, seu parceiro musical, Benny Blanco, disse que era a sua pior. A maioria das pessoas na Asylum Records não gostou dela também. Em sua defesa, Sheeran usou um argumento comercial sobre o tamanho da diáspora irlandesa, mas a verdade é que ele apenas gostava dela pra valer. “Eu sou uma pessoa muito teimosa”, conta ele, “eu fui teimoso quanto a Galway Girl”.

Quando foi lançada em março, Galway Girl foi duramente criticada em reviews e no Twitter, mas quando a Q o vê tocando-a ao vivo em Nottingham e em Londres algumas semanas mais tarde, o público fica louco. Como agradável ao público, já está ao lado de Sing, Thinking Out Loud ou The A Team. E ficou em número 1 na Irlanda. Então ele estava certo, não estava?

“As pessoas odeiam para caralho essa música, então elas diriam que eu estava errado, mas o consenso geral é que sim, ela funciona”, ele conta. “Essa música é como uma Marmite, o que é muito bom. Eu quero que as pessoas tenham opinião, ainda que a opinião delas me machuque. Eu sou chamado de ‘bege’ com frequência, mas não tem como ser bege se você divide opiniões pra porra.”

Quando Sheeran escolheu chamar seu novo álbum ÷ (Divide), após o + (Plus) de 2011 e o x (Multiply) de 2014, foi em referência aos dois lados de sua música – originalmente seria um álbum duplo. Agora, o nome descreve perfeitamente o efeito que Sheeran tem na opinião pública. Seu sucesso é surpreendente. Considere Shape Of You: número 1 no UK por 14 semanas e no US por 12; teve mais de 1,5 bi de streams. Até músicas que ele dá para outros artistas são enormes, como Love Yourself de Justin Bieber (o maior sucesso de 2016) ou Cold Water do Major Lazer, música que Sheeran esqueceu que havia escrito. Em sua primeira semana, ÷ vendeu mais que todo o resto do Top 200 duas vezes e foi tocado com tanta frequência no Spotify, que suas 16 músicas dominaram o Top 20. “Eu sei que em minha vida eu nunca verei outro artista que tenha esse tipo de crescimento exponencial”, diz Mark Cunniffe, veterano em design de iluminação que trabalha com Sheeran há anos.

Com a popularidade quebradora de recordes, entretanto, vem o oposto, porque fãs de música perdoarão qualquer coisa, exceto onipresença. Em Eraser, a música de abertura do ÷, Sheeran canta “quando o mundo está contra mim é quando realmente fico vivo”. Quem está contra ele agora que ele é o maior artista do mundo, tirando a Adele?

“Ah, cara!”, ele exala. “Eu na realidade nunca senti tanto ódio recebido na minha vida, mas também nunca senti tanta adoração. Há dois extremos, na verdade é uma situação muito perigosa de se passa porque não há meio termo, o que também não tive antes. As pessoas ou estão me odiando pra porra e querendo que eu morra e nunca mais fazer música de novo ou as pessoas acham que sou um profeta.”

Ele balança a cabeça. “É estranho. Em cada performer, você meio que está fazendo isso porque quer que as pessoas gostem de você. Musicalmente, eu entendo que não sou tão agradável, mas há pessoas que nunca me conheceram e têm essa ira em relação a mim como ser humano. É muito desencorajador ter milhões de pessoas querendo que você falhe.”

O que ele pode fazer quanto a isso? “Continuar fazendo sucesso”, diz ele instantaneamente. “A única maneira de silenciar as pessoas que querem que você falhe, é continuando a ter sucesso.”

O camarim de Sheeran na Motorpoint Arena em Nottingham é uma bagunça notável: há roupas saindo de malas de viagem, uma cabine cheia de parafernálias musicais e, por alguma razão, uma escultura de chocolate de sua cabeça. Três horas antes da hora do show, ele deita no sofá, coloca os pés na mesa de café e acende um cigarro.

Muitos artistas que tiveram a experiência de fazer sucesso significativo ainda jovem, parecem ser frágeis e desorientados, incapazes de respirar num ambiente que não esteja sob o perfume de celebridades. Se há uma linha de falha em sua psique, então a fama irá encontra-la e abri-la. Sheeran, entretanto, ainda se sente muito sólido: bem-humorado, imperturbável e autoconsciente. Ele não parece ter mudado nada, embora não tenha certeza de que isso seja algo bom. Ele fala sobre a antiga fala de que astros do pop se congelarem na idade com a qual ficaram famosos.

“Faz sentido porque há muitos artistas que agem como se tivessem 14 anos de idade porque eles ficaram enormes aos 14 anos e nunca tiveram maturidade mental porque as pessoas que estão ao redor deles mudam. Mesmo que você cometa um erro, ele é encoberto, então não há um crescimento verdadeiro. Eu definitivamente ainda me sinto com 20 anos, não me sinto com 26.”

De maneiras cruciais, Sheeran reteve a fundamentalidade de sua vida pré-fama. Ele mora em Londres e em Suffolk, onde cresceu. Apesar de ter amizade com Paul McCartney, Elton John, Taylor Swift, Mick Jagger, Russel Crowe, Princesa Beatrice, Eric Clapton e Stormzy, seus amigos mais próximos são os da época da escola, bem como sua namorada, Cherry Seaborn. Seu guarda-roupa ainda consiste em camisas xadrez e roupas de skatista, e seu comportamento continua positivamente bagunçado. Em uma aparição na HMV em dia de lançamento, ele parecia menos com um astro do pop e mais com um fã esperando para conhecer um ídolo pop.

Obviamente, isso não significa que ele seja um qualquer. As pessoas que querem que artistas sejam desordeiros que se preocupem apenas com a música, pintam Sheeran como um homem rude e calculista que se preocupa com números, fantasiado de músico. Ele culpa a si mesmo por ser muito aberto a expor as coisas.

“Eu sou caracterizado como um CEO megalomaníaco que se importa apenas com os charts e vendas”, ele suspira. “Todo artista que você já entrevistou se importam da mesma forma, eles apenas não admitirão para você. Eu sei porque converso com eles. Mas eu devia ser esperto e não falar sobre isso. Eu aprendi com o meu erro. Agora todos dizem ‘olhem ele! Nós não falamos sobre isso’. A composição, ele protesta, é separada disso tudo. Eu sei que muitas pessoas dizem que é um álbum muito calculado – essa música é para o mercado; aquela música é para o mercado – mas são apenas músicas que gosto de fazer.”

Sheeran pertence a uma geração inteligente, que sabe que negócios não serão cuidados sozinhos, mas ele também acha verdadeiramente fascinante – até mesmo divertido. Ele talvez tenha sido “uma merda na escola”, mas ele é um estudante top da indústria da música.

“Ed está constantemente fazendo perguntas e ponderando as coisas”, diz Ben Cook, presidente da Atlantic Records UK. “Ele está sempre curioso. Ele ama o jogo no qual está inserido e possui um apetite insaciável por conhecimento.”

Cook se recorda de quando assinou o contrato da Asylum com Sheeram em um pub de Framlingham, Suffolk, em 2011. Sheeran já possuía um plano de mestre: cinco EPs, cinco álbuns nomeados a partir de símbolos matemáticos, outra série de cinco após essa. No trem, voltando para Londres, Cook diz que Sheeran conversou sobre o que ele faria após seu álbum de estreia vender mais de um milhão de cópias. “Eu estava maravilhado com o quão direta era sua ambição”, Cook fala. “Mas nada daquela dedicação era pouco atraente. Era apenas uma autoconfiança muito inspiradora”. (Estranhamente, Sheeran diz que pensou que venderia 30 mil cópias, no máximo.)

Mas de onde vinha aquela motivação? Quase toda megaestrela teve algum trauma formativo que serviu como ignição para suas ambições incomuns, seja pobreza, perseguição ou perda. Sheeran, todavia, cresceu em meio a uma família afável e apoiadora. Seu pai, um curador de arte e professor, nutriu o interesse de Ed por música ao leva-lo a shows. Foi ao ver Damien Rice quando tinha 11 anos que o tornou num aspirante a compositor: “um momento crucial”. Seus pais permitiram que ele saísse da escola em 2008 e perseguisse seu caminho no cenário musical londrino, enquanto dormia em sofás e, ocasionalmente, nas ruas. Sheeran teve uma tenacidade incansável e audácia. Eventualmente, começando com The A Team em 2009, ele teve as músicas, também.

Todo fã de Sheeran sabe a história de sua origem, mesmo porque ele conta versões dela em cada álbum. Ele coloca trabalho árduo e ambição sobre o talento. “Eu não sou supertalentoso”, insiste ele. “Eu não sou o melhor violonista, não sou o melhor cantor, não sou o melhor compositor”. Ele fala um pouco sobre sofrer, não ter ido à universidade e por aí vai.

“Provavelmente há uma parte de mim que quer continuar a falar às pessoas que não foi da noite para o dia”, ele fala. “Eu estou há sete anos nisso agora e as pessoas se esquecem.” Ele acha que é por isso que irrita as pessoas. “Elas não entendem o porquê de eu estar onde estou. Elas ficam tipo ‘como ficou tão grande?!’ Acho que é uma confusão.”

A batalha precoce pare ser levado a sério, importa, ele conta, porque foi a mais crucial de suas ambições. “Ninguém que eu conhecia, exceto o meu pai, pensava que eu conquistaria alguma coisa. Eu sempre fui ridicularizado por ser um cantor-compositor com um pedal de loop, que fazia rap, tocando em noites independentes com um filho da puta de calça apertada. Foi isso o que de fato me motivou – ninguém acreditar que daria certo e eu realmente querer provar que daria.”

E por que deu?

“Você teria que perguntar a alguém que é fã”, ele diz, com vergonha.

Certo, então. Ben Cook conta uma história acerca do making of do +. “O engenheiro de mixagem havia colocado um efeito na voz de Ed, o que é parte natural do processo, mas o Ed disse que o faria parecer muito distante. Ele tirou tudo e de repente tudo ficou, sim, isso é o Ed. Uma conexão sem filtro entre ele e o que ele está dizendo. Isso é algo poderoso.”

“Ele é um performer tão honesto”, diz Mark Cunniffe. “O que você vê é o que você recebe. Ele é incrivelmente acessível. Eu acho que sua humanidade é única porque todo o ponto de ser um astro moderno do pop é que se trata de algo fechado e o Ed certamente não é assim.”

Sheeran não prosperou apesar de não se parecer com um pop star, mas por causa disso. Na década atual, autenticidade é uma moeda valiosa e o Ed Sheeran desajeitado, honesto e aberto, possui aos montes. Ele te faz pensar – e ele próprio te dirá isso – que se você tiver trabalhado muito arduamente e se desse bem com todos e nunca fingiu, então poderia ser você, seu amigo, seu primo, seu sobrinho. Mesmo agora, Ed Sheeran é o astro mais relutante do planeta.

O que você herdou do seu pai?
Ética profissional.

E de sua mãe?
Minha mãe se adequa bastante porque ela é bacana e eu gostaria de pensar que eu sou assim, mas eu tenho menos papas na língua. Estar na indústria da música, você chega ao limite.

Em What Do I know? você canta: “Meu pai me disse, ‘filho, não se envolva com política, religião ou em brigas de outras pessoas’.” Isso não seria tirar o corpo fora?

Por que? Quem diabos quer que eu cante sobre política? Acho que se eu começasse a cantar sobre questões políticas, as pessoas pensariam “se acalme, cara, você só tem 26 anos”.

Você votou no referendo no ano passado?

Sim.

Sair ou continuar? [Na/da União Europeia]

É… Bem, essa é a questão, eu não me envolvo com política. Mas direi uma coisa: nasci europeu e eu amo pra caralho ser um europeu. Você pode adivinhar a minha resposta a partir disso.

Foi respondido habilmente.

Obrigado.

Você já tentou ter um estilista?

Lembro de ter uma reunião para o segundo álbum e havia roupas que realmente pareciam ficar bacanas em você, mas eu simplesmente parecia um idiota nelas, eu sou um ser humano desajeitado. Alguém me perguntou o porquê de eu não ter um perfume porque todo mundo lança uma fragrância. Eu sou louco por limpeza, tomo banho duas vezes por dia, mas se você olhar para mim em um pôster, você não pensa “parece que esse cara cheira bem”.

Qual é o seu livro preferido sobre música?

Isso soa estúpido, mas eu não leio livros de forma alguma, a não ser que seja Harry Potter. Eu não tenho muita cultura. Eu gosto de fast food, assisto a programas trash na TV, eu não sou alguém que leia Keats. Meu irmão é o Sheeran erudito. Ele é um compositor clássico. Ele fez todos os arranjos de corda do álbum.

Qual é o seu papel na nova temporada de Game Of Thrones?

Eu faço uma cena de cinco minutos com a Maisie [Williams]. Eu canto, mas obviamente não é uma de minhas canções. Eu acho que todos esperam que eu morra. [Ri] Esperam que eu mora nela.

Você em algum momento sofre da síndrome do impostor?

Eu acho que todos nos sentimos assim. Sempre há um pouco de confusão quando você está sentado perto do Jay Z e da Beyoncé no Grammys, pensando: “Por que diabos eu estou aqui?” Também haverá momentos quando estou no palco e eu pensarei em quando toquei para ninguém em um pub do Holland Park e penso: “uau, como cheguei aqui?” Todos têm isso em determinadas situações. Seria louco se não.

Se você queria saber os próximos símbolos que darão título aos dois próximos álbuns de Sheeran, tudo que você precisaria fazer, é inspecionar seu mar de tatuagens. “É meio como em Prison Break”, ele diz, dando pistas, “Está tudo ali.”

Com suas letras, é parecido. Todos os fatos pertinentes sobre Sheeran está escondido “visivelmente”. Quando ele sente uma emoção forte, seja positiva ou negativa, ele escreve uma música. A maioria delas não está disponível, mas se elas são boas o suficiente, então ele irá lança-las, não importam as consequências.

“Eu não sou uma pessoa enormemente privada, musicalmente”, diz ele. “Eu não acho que se você é um artista, você não deva ter um filtro. Tudo da minha vida vai para músicas, muitas vezes para o desgosto de algumas pessoas que conheço porque algumas músicas são legais e outras não são. O problema com coisas como New Man, Don’t e Love Yourself, é que há uma rusga em todo mundo e ela surge por uma hora, mas naquela uma hora eu calho de escrever uma música que vive para sempre.”

Uma dessas músicas é Eraser, uma “reclamação” sobre o fim difícil do sucesso. “Eu estou muito ciente de certas coisas que destruirão um homem como eu”, diz o refrão. Quais coisas?

“A música fala sobre ‘borrachas’ para a dor, o que pode ser qualquer coisa desde álcool a mulheres. Mas muitas das coisas que aliviam a dor podem destruir você também.”

Em Save Myself, a última faixa bônus do Divide, aprendemos mais enquanto Sheeran canta: “A vida pode te colocar para baixo, então eu apenas entorpeço como ela se faz sentis / eu afogo com uma bebida ou pílulas prescritas vencidas”. Podemos ler isso literalmente?

“Acho que sim. Você pode. Eraser é sobre cair em tentação. Sabe, todas essas coisas são coisas errades de se fazer, mas você faz essa porra de qualquer forma. E Save Myself é sobre parar com elas.”

Ambas as músicas surgiram da última turnê mundial de Sheeran. Dessa vez, ele trouxe três amigos consigo na estrada, mas naquela época ele estava solitário. Em fevereiro de 2015, ele terminou com nua namorada Athina Andrelos, então ele também estava solteiro. “Você cria hábitos”, ele diz em tom de crítica. “Você sai com um monte de estranhos aleatórios que conheceu naquela noite e se comporta mal. Você entra numa pilha de festas e é exatamente quanto a isso que as pessoas te avisam. É muito fácil escorregar.”

Não se trata, contudo, de uma história sobre “meu inferno com as drogas”. Sheeran não tem o que é preciso para ter uma alma atormentada. Ele possui uma personalidade apta para vícios, ele diz, mostrando suas tatuagens com seu cigarro, mas não quando se trata de álcool. Seu principal problema, o que também é uma qualidade, é que ele odeia perder. “Eu sempre aproveitei cada oportunidade”, ele diz. “Ainda que eu estivesse cansado, eu sairia e algo aconteceria.”

Quando ele fez seus shows no Wembley em 2015, todavia, muitas coisas aconteceram. Tirando alguns cochilos, ele não dormiu por três dias. “Eu mal me lembro do Wembley, ficou embaçado.” No ano seguinte, pela primeira vez em uma década, ele tirou um ano de férias. Ele viajou pelo mundo e reencontrou amigos antigos. “Trata-se de ir a uma festa de famosos e pensar ‘uau, isso é louco pra caralho’. E depois voltar para um pub de Suffolk com seus amigos e abafar isso” conta ele. “Você precisa ter os dois.” Deram a ele uma perspectiva sobre seu excessos também. “Ele são tão mais duros comigo. Eu penso “foda-se, eu estou bem”’, ele ri. “Meus amigos fazem umas merdas estranhas. Não há muito a se fazer em Suffolk, além de coisas estranhas.”

Hoje em dia, quando Sheeran menciona o pub, ele pode estar se referindo ao que ele construiu em seu quintal. Ele admitiu que a melhora em sua situação financeira foi muito drástica e ele se permite algumas extravagâncias, como o Aston Martin que ele não dirige. “Eu não sou muito ligado a carros, eu sou ligado em James Bond. Mas, então, eu não sou o James Bond.” Ele gasta muito dinheiro. Seu cérebro ainda não acompanhou sua situação bancária. “Se meu eu de 19 anos de idade pudesse ver meu eu de 26 anos, ele diria: ‘porque você gastaria tanto com um cinto?’”

A única coisa que incomoda Sheeran quanto a fama, é ser tópico constante. Ele lê toda review, embora saiba que não deva. “É louco porque te faz questionar o seu trabalho. Agora todos estão dizendo como Galway Girl é uma merda e eu começo a pensar: ‘Bem, será que é?’” Até quando ele está evitando a si mesmo online, ele verá seu rosto em algum post patrocinado, clicará nele e então ficará chateado com alguma história. O clickbait, ele diz, é o motivo de muitos de seus amigos famosos terem parado de dar entrevistas (“destruirá artistas que fazem isso”), mas Sheeran gosta de conversar. Quando nosso tempo esgota, ele, felizmente, diz: “mais dez minutos?”

Conversamos sobre o Glastonbury. Quando ele foi anunciado como a principal atração da noite de domingo, houve um rebuliço previsível por parte dos céticos. Quando o mundo está contra ele…

“Eu estou animado pra caralho para acabar com alguns pessimistas”, diz ele. “Em algum ponto da noite, ainda que você não goste da minha música, se você estive bêbado com seus amigos e eu tocar uma música que você conhece, você irá cantar.”

O Glastonbury é o pico da carreira de alguns artistas, mas o há o Himalaia aguardando por Sheeran.  Após seus shows em arenas, que acontecem muitas e muitas vezes, haverá estádios. O ÷, que já vendeu 8 milhões de cópias, continuará acontecendo. Pode ele ficar ainda mais grande? Você não seria contra isso, mas Sheeran, como sempre, está pensando mais longe.

Um de seus amigos e parceiro de composições, é o cantor-compositor Foy Vance. “Eu sempre pensei: ‘por que ele não é maior que eu?’” Sheeran diz. “Ele canta melhor, escreve melhores músicas, ele é um performer melhor. Mas suas ambições são diferentes. Ele não quer tocar no Wembley. Ele só quer escrever músicas, fazer shows quando quiser e relaxar com sua família em Highlands. Ele é perfeitamente feliz”. Por um segundo, Sheeran parece quase sentir inveja. “Eu acho que eventualmente serei assim, também, mas eu ainda tenho esse fogo em minha barriga.”

Na noite de domingo, nos bastidores do Glastonbury e Ed Sheeran está nervoso. Isso não é comum para ele. O Glastonbury não é o seu maior show até hoje (Sheeran sabe os números e o Wembley foi maior), mas é o mais significativo culturalmente. “Foi a única coisa em minha mente nos últimos dois meses quando eu estava no palco”, conta ele. “Eu realmente quero que as pessoas que não gostem de mim venham. Esse é o principal objetivo. Eu só quero convencer as pessoas.”

Normalmente, ele estaria fumando sem parar nesse ponto, mas ele parou há algumas semanas, após 13 anos, para que pudesse escalar o Machu Picchu no Peru, durante sua turnê pela América do Sul, e ele se recusa a ter tentação agora. Há cem amigos e familiares que ele trouxe consigo e eles estão aproveitando o festival, então ele está passando o tempo sozinho em seu camarim, assistindo coisas no YouTube e conferindo o Twitter. Não é a melhor estratégia.

“As pessoas no Twitter continuam a me chamar da porra de um Tory!”, protesta ele, ferindo sua regra de não mencionar política. “Eu não sei de onde isso surgiu. Deixe claro que sou muito fã do Corbyn.”

Ele tem lido o ódio gerado pelo Glastonbury também. “Eu leio sim coisas negativas e isso tem me deixado para baixo, mas é colocar lenha na fogueira porque sinto que tenho algo a provar.”

Sheeran tocou em alguns palcos menores do Glastonbury em 2011 e no Pyramid Stage em 2014, mas ele nunca explorou o festival de fato. Hoje ele só veio e vai embora. “Eu gosto de tocar em festivais, só não gosto de ir a eles”, ele conta. “Eu tenho uma ansiedade muito ruim quando estou em grupos de muitas pessoas. Eu amo as barracas de comida, entretanto. Se não houvesse ninguém no festival e apenas barracas de comida, eu teria um momento ótimo pra caralho.”

Além da ansiedade, a imagem de que Sheeran é um cara comum e acessível faz com que as pessoas não temam ser pegajosas. Ele se recorda de uma vez em que pegou um trem para a Escócia quando era headliner do RockNess, apenas para descobrir que ele estava num vagão cheio de fãs por várias horas. Se seus amigos insistirem em arrastá-lo após o show, ele tem um plano: ele mostra uma máscara de um lutador mexicano que poderia fazê-lo não ser reconhecido.

Não foi apenas o hábito de fumar de Sheeran que mudou desde Nottingham. Ele agora é Ed Sheeran BME. “Eu não sei o que isso significa de fato, só é um reconhecimento bacana. Eu não comecei a assinar assim em meus e-mails.” Imediatamente após o Glastonbury, ele irá gravar um uma dublagem para um desenho de comédia famoso, o qual ele ainda não pode citar o nome, mas parece que se trata de The Simpsons, e também terá uma reunião sobre um filme. “Eu quero ter um momento 8 Mile, mas algo como uma fusão entre 8 Mile e Notting Hill. Nada de Detroit, mas em Ipswich”. Ri ele: “Eu tenho muitas músicas sobre Ipswich que não foram lançadas, então eu poderia fazer uma trilha sonora.”

Você se pergunta como ele arranjaria tempo. Sheeran já tem dois anos de shows em estádios agendados e depois festivais em 2020, quando seu próximo álbum deve ser lançado. Ele já escreveu seis músicas para ele e há mais 12 para o seguinte. A vida de Sheeran é tão ocupada e se move tão rapidamente, que ele quase não tem tempo para desfrutar do que está acontecendo. “Fica mais difícil assimilar”, ele diz. “Eu não fico me demorando nas coisas. O Glastonbury é enorme para mim, mas sei que amanhã eu estarei pensando no que vem a seguir.”

Duas horas mais tarde, Sheeran está em seu elemento: um violão, um pedal de loop, dezenas de milhares de pessoas que sabem cantar. Se há céticos na audiência, então eles não estão nenhum lugar próximo da Q. Ele fecha com You Need Me, I Don’t Need You – música que ele começou a escrever aos 15 anos, a música que chamou atenção da Asylum Records, música de uma outra época.

Antes disso, passadas apenas algumas músicas, ele diz: “Eu vou tocar uma música agora que vocês podem não gostar, mas tenho muita certeza de que vocês sabem a letra”.

É claro, trata-se de Galway Girl. É claro, eles cantaram alto.

Tradução e adaptação: Fernanda – Equipe EdSheeranBR
Não reproduzir sem os créditos

q001.jpg q003.jpg q007.jpg

SCANS > 2017 > Q Magazine